sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ESPELHO


Aproximando-se mais do que necessário para uma pessoa com "vista boa", o míope observava seu reflexo ainda um pouco difuso na superfície luminosa do espelho. Ruguinhas se formavam abaixo dos olhos acompanhadas de olheiras, ambas conseqüentes do esforço realizado para distinguir rostos, objetos e degraus - principalmente degraus - sem auxílio das lentes que de tão grossas, distorciam o contorno de seus olhos.

Em uma tentativa frustrada de burlar o castigo, pulando muro de casa com as pernas longas de alguém com 1,78 de altura, a armação de Klaus escorregara do nariz anguloso e caíra no chão partindo-se em pedacinhos reluzentes. Partira também o nariz no tombo que sucedeu a falta visão. Desde daquele dia, porém, no mesmo horário, entre as 4 e 25 e 6:30, o garoto postava-se diante do espelho, à observar o reflexo que se formava ao lado do seu. Diferentemente de tudo que enxergava com 5,5 e 4 de miopia, a garota do espelho era tão nítida quanto o esparadrapo que cobria seu nariz.

Ao acaso, no dia em que quebrou os óculos, o nariz e prolongou o castigo, Klaus deixou a toalha cair ao sair do banho, e se levantando, deu de cara com a pequena de olhos violeta. De feições enigmáticas, não falava uma palavra, apenas vez ou outra piscava os olhos. Confuso, assustado e intrigado, reações típicas de alguém com curiosidade aguçada, dirigiu-se a ela, e como resposta teve sorrisos. E nem uma palavra sequer.

Passou a observá-la todos os dias, sem a denunciar a ninguém. Fazia-lhe companhia nem que por alguns raros minutos. Até o dia em que os óculos voltaram, e suas lentes, mais grossas e firmes do que nunca. Klaus notou que não à via quando os colocava, e por uma reação intuitiva escreveu sua dúvida com o batom vermelho de sua mãe no espelho.

"Por que não a vejo com óculos?"

Como a mesma textura cremosa escarlate, surgia no espelho à resposta, letra por letra emergindo do outro lado da superfície luminosa.

"Por um motivo semelhante ao que não enxerga sem ele todas as outras coisas desse mundo."

Franzido o cenho, Klaus saiu do banheiro inquieto. Estaria ficando louco, e a menina do espelho seria uma alucinação?

Quando criança, lembrava-se de ver uma garotinha de olhos violeta, e se a mencionava para os pais, sorriam descrentes, não lhe dando importância. Percebeu com o tempo que só ele podia vê-la, e segundo seu primo mais velho, ela não existia, era imaginária. E depois daquilo não a viu mais. Seu castigo terminaria na manhã seguinte, e foi deitar-se com a resolução de que não apareceria na frente do espelho no horário em que a garota costumava aparecer. Estava grandinho demais para ter amigos imaginários.

Acordou, encontrando no corredor a feição séria dos pais, intrigados com o porque de todos os espelhos da casa amanhecerem trincados.

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Pretendo esse me dedicar mais a contos, que comparados a quantidade de resenhas feitas aqui no blog, tornaram-se esquecidos em 2011. Como tenho muito afinidade com temas sobrenaturais, me divertindo muito escrevendo sobre estes, podem esperar muitas outras com acontecimentos inexplicáveis.

5 comentários:

  1. Um texto rebuçados de detalhes. Adorei!

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  2. Esse conto é perfeito.

    As vezes me sinto mais bonita com óculos, tenho mania de me esconder atras de "coisas".

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  3. Um conto tão doce como chocolate! Muito bom :)

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  4. Eu adoro fazer contos!

    http://portifoliodasletras.blogspot.com/

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