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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Câmera, cor e inspiração

Dias atrás descobri um projeto chamado End the Echo cuja proposta é incentivar designers a utilizar como fonte de inspiração na hora de desenvolver um projeto, não só materiais criados por colegas de profissão expostos em bancos de portfólio como o Behance,  como também elementos e cores do cotidiano urbano, formas e texturas de ~coisas que a natureza nos dá~ e produtos criativos de outras categorias como música, fotografia, dança, etc. 

A partir deste desafio comecei a refletir sobre qual seria minha principal fonte de inspiração desde o início de minha carreira. A resposta não poderia ser outra se não cinema.

Os filmes que assisto me inspiram muito, principalmente a paleta de cores escolhida para fotografia, figurino e cenário. 
Fiz uma lista com sete obras que gostaria de roubar as cores da tela para colorir tanto meus projetos como ambientes e situações da minha pacata vida. 

Memórias de uma Gueixa

O Grade Hotel Budapeste

A Noiva Cadáver

Maria Antonieta

A princesinha

Sucker Punch

A Maldição da Flor Dourada

O Fabuloso Destino de Amelie Poulain


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Enquanto isso, na mente de Kubrick

OBS: Essa resenha contém um alto nível de spoilers e de tietagem  

  Christiane Kubrick, viúva de Stanley Kubrick, para o deleite de reles mortais fãs do trabalho de seu finado marido - como eu - encaminhou para fins “artísticos/democráticos” um acervo, pelo qual cinéfilos abastados desembolsariam uma boa grana para arrematar em leilões, composto por anotações, posters, storyboards, rabiscos, fotografias, documentos fiscais, roteiros e até figurinos, além de outros elementos utilizados durante a construção das obras do cineasta, transformando-o na Stanley Kubrick - The Exhibition, exposição que chegou ao MIS - Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. 

  Infelizmente atarefada, só pude conferir a mostra no último domingo, cheia de visitantes que criaram uma fila gigante ao redor do museu, na qual eu esperei, duas horas, cansada, porém com expectativa de ter minhas expectativas superadas. E tive.

  Duas horas tornaram-se insignificantes perto da riqueza de conteúdo e da forma surpreendente, dinâmica e criativa como ele foi explorado, por 16 ambientes que compõe a exposição. Além de abrigarem objetos utilizados em cena, documentos técnicos e materiais de divulgação, as salas também foram tematizadas com elementos que se tornaram referência dos filmes de Kubrick, e de seu estilo único: crítico, irônico, original e "audio-visualmente" impecável.

  Na sala de Lolita, a atmosfera “American Dream” da adaptação do profano romance de Vladmir Nabokov é construída por paredes de renda, e gigantes óculos de sol em forma de coração, que recebem em suas lentes projeções de partes do longa. Já no ambiente de Eyes Wide Shut, ficamos diante de paredes de espelhos iluminadas a meia-luz, onde são penduradas máscaras venezianas, recriando o característico clima sensual, misterioso e macabro da última produção do diretor.

  Uma parede coberta por aparelhos de TV nos apresenta cenas de “Laranja Mecânica”. Nesse ambiente o prostíbulo onde ocorrem as reuniões de Alex D'large e seus droogs é reconstruído, com direito ao peculiares mannequins pálidos e o figurino do Molloko Vellocet exibido em uma vitrine.

  Certamente, o momento mais impressionante de toda exposição foi a área criada para abrigar “O Iluminado”. É impossível não se sensibilizar - e se amedrontar - com um labirinto de corredores soturnos, réplica perfeita do hotel em que a família Torrance se instala e se destrói. Cada “porta-de-correr” que marca os corredores guarda elementos do filme, como o figurino das gêmeas mais assustadoras da história do cinema e o machado utilizado por Jack Torrance.

  Embora tenha predileção pelos filmes mencionados, devo destacar que todos os demais ambientes da Stanley Kubrick - The Exhibition foram formulados para fazer o visitante se sentir dentro dos bastidores de um filme de Kubrick. Ou sendo mais exagerada e tiête, afirmo que são capazes de nos transportar para dentro da mente do diretor.   

domingo, 1 de setembro de 2013

The first roc(k)ocó star

Um dos itens analisados na última aula de Criação Visual que tive foi a capa do filme sobre um dos ícones mais polêmicos da monarquia francesa: Maria Antonieta. A menção da trama despertou em mim a intenção de revê-la, que a muito tempo rondava minha check-list ~pseudo cinéfila~.  

A sensação que me tomou após revê-lo, nesse sábado, confirmou uma teoria pessoal de que é possível se apaixonar por um filme para o qual não dei tanta credibilidade no passado. Minha má impressão anterior talvez se fundamente nas expectativas infladas que nutri pela obra, ou na minha implicância – completamente sem fundamento – para com sua produtora, Coppolina, hoje uma de minhas diretoras favoritas. Além do mais, a primeira vista não pude perceber a outras facetas da “madona do sec. XVIII”, ausentes nos livros de história.


O filme é doce, como uma cobertura de glacê sobre um bolo açucarado. Contrastando a fotografia ora cinzenta, ora amarelada, com as tonalidades marcantes de tons pastel que cobrem os figurinos, os cenários e até os atores, carregados de pó de arroz, rendas e perucas exageradas. Foi justamente esse exagero de delicadezas, quase infantis, que compõem o plano visual do filme, o que outrora fez a singular proposta do roteiro passar despercebida por mim.

Sofia Coppola, muito provavelmente, buscava evidenciar o lado natural da imaturidade de Maria Antonieta. Pois imaturidade é algo previsível para uma adolescente. O que não é previsível é entregar a responsabilidade de reger um país nas mãos de dois adolescentes despreparados para a assumir.

Isolando-se em uma atmosfera de sonho, financiada por impostos e construída por caprichos, Maria Antonieta buscava fugir não só da missão para qual não estava preparada, mas também daquele ambiente sufocado por picuinhas, formalidades e exigências fúteis de Versalles. Se fecharmos os olhos para o contexto histórico onde a monarca esteve incluída, não só enxergar, como nos comover, com uma jovem sim, irresponsável, mas também oprimida por pressões políticas e rococós.

A fragilidade das ações de Kirsten Durst, atrilha sonora recheada de um rock’n’ alternativo e a ambientação remetente a um conto de fadas, só foram as estratégias audiovisuais utilizadas por Coppolina para construir este novo panorama de uma mulher que influenciou costumes e decisões, como uma estrela pop.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Ideia de roteiro para filme francês

Garota conhece garoto em uma loja de camisetas. 

Eles se encontram novamente em um bar. Ele a leva pra casa, e eles passam a noite juntos. Garota e garoto se separam em uma estação de metro. Ele entra no próximo vagão a considerando sua alma gêmea. Ela saí da estação o considerando o amor de sua vida. 

Garota é atropelada. 

Ainda dentro do vagão, ele tira um papel do bolso, onde se encontra o número de celular da garota. A mãe da garota atente aos prantos, e o informa da fatalidade. 

O garoto e todos os outros personagens passam o restante do filme refletindo sobre a efemeridade do amor e sobre as desventuras do destino.

(Vocês tem alguma dúvida de quem seria meu “Garoto”?)


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ditadura da Felicidade

Baseado no best-steller de Elizabeth Wurtzel e protagonizado por uma de minhas atrizes favoritas - Christina Ricci – “Geração Prozac” superou minhas expectativas, ao esmiuçar detalhadamente a mente de uma pessoa contaminada pelo considerado mal do século, de origens confusas e consequências fatais para um indivíduo por ele afetado: a Depressão.

É impossível começar essa resenha sem mencionar a ditadura da felicidade na qual vejo minha geração mergulhada. As imposições cotidianas, decorrentes da excludente e criteriosa sociedade atual, nos obrigam a fugir desesperadamente não só da tristeza e da melancolia, como de qualquer outro sentimento profundo o suficiente para nos afastar de nossos objetivos. Usufruímos de todos os recursos terapêuticos ou medicinais para manter inabaláveis nossa produtividade e bom humor.

Não há como negar que, especificamente, a partir dos anos 80 – época em que se passa a trama – tornou-se exaustivo ser humano. Uma das maiores frustrações do homem moderno é justamente não poder sustentar initerruptamente esse equilíbrio e bem estar emocional, nem apresentar a eficiência dos robôs, pelos quais impotentemente se vê sendo substituído.

Lizzie tem, aparentemente, tudo do que precisa para ser feliz. Uma mãe dedicada (até demais), recursos financeiros e a capacidade singular de escrever, dom que lhe rende uma bolsa em jornalismo e a leva ao Santo-Graal do American Dream: Harvard. A jovem almeja tornar-se escritora, e é consciente de que não precisa necessariamente ir para faculdade para realizar esse sonho, abraçando a vida acadêmica mais para satisfazer as ambiciosas expectativas que a mãe tem para seu futuro.

A faculdade não só proporciona a Lizzie experiências restritas por sua exigente educação – sair com rapazes, ir a festas, ter a companhia de uma grande amiga – como apresenta para ela o sedutor mundo dos narcóticos e seus efeitos em sua produção literária. Afetada por um barato de esctasy, a garota escreve um artigo premiado sobre uma banda de rock em ascensão, sendo este o responsável por trazer a ela a oportunidade de sua vida: um contrato com a Rolling Stone.

Contudo, se por um lado Lizzie é abastada por esse privilegiado talento, por outro, sofre de um psicológico frágil, marcado por um profundo vazio emocional, o qual se supõe ser originado da ausência paterna e uma existência sobrecarregada pela missão de corrigir os erros da mãe. Gradativamente e depois rapidamente – como a própria personagem no filme descreve – Elizabeth, impulsionada pela súbita aparição do pai e pela pressão do trabalho, acaba engolida por uma forte crise de depressão.

É um filme de fotografia e enredo simples, sem grandes altos e baixos, podendo não apresentar o brilhantismo de megaproduções hollywoodianas. Porém, essas faltas são mais que compensadas com a forte presença da personagem de Ricce e a marcante atuação de Jessica Lange, que interpreta a mãe da protagonista, tão instável e problemática quanto ela.

Geração Prozac pode não comover a ponto de arrancar lágrimas, e creio que esta nem foi a intenção da equipe que o produziu. Entretanto, nenhuma outra estória me mostrou de forma tão concisa o processo de “infecção” e “recuperação” de uma pessoa depressiva, de como até as mentes mais geniais não estão invictas de serem perturbadas e de como fatos considerados triviais para uns, podem custar a felicidade de outros.

Terminei o filme valorizando ainda mais aquela sensação de serenidade mental, que pode não se equiparar à felicidade ideal, mas é o que me mantem em equilíbrio para lutar por meus objetivos e preservar as coisas que valorizo e amo.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Balé de Emoções

• Essa resenha contém spoilers •

O balé remete a mim, o contraste da delicadeza de movimentos com a magnitude da estrutura das apresentações, a precisão e o rigor da técnica, que ambicionam produzir um espetáculo perfeito. Como encontrei todos os requisitos citados em Sapatinhos Vermelhos, não poderia deixar de considera-lo o melhor filme que já assisti sobre o tema.

No espetáculo de balé que abre a estória encontram-se Victoria Page, Julius Craster e Boris Lermontov, triângulo amoroso em torno do qual a trama se desenvolve. Boris é arrogância e a pretensão em pessoa, mas a companhia de ballet que dirige, notável pela qualidade de suas apresentações e pelo talento de seus integrantes, lhe confere respeito social, admiradores e muita bajulação.

O diretor acredita que uma bailarina perfeita vive unicamente para o exercício e aperfeiçoamento da técnica, renunciando à anseios e experiências de uma “mulher comum”. Só aceita a naturalmente talentosa Victoria em sua equipe, após a moça lhe responder a seguinte questão: “Você quer viver, ou dançar?”. Apaixonada por balé, Victoria sem nada ponderar escolhe a segunda opção. Boris se propõe a treiná-la até fazer dela uma exímia bailarina, acabado por criar, durante este processo, um afeto além do de mestre e aluna.
Contudo, suas primeiras e segundas intenções são atrapalhadas pelo romance que nasce entre Victoria e Julius, um jovem compositor cujo súbito sucesso foi consequente do patrocínio de Boris, ao lhe confiar a tarefa de criar melodias e reger a orquestra da companhia.

Supondo que músicos e bailarinos possuem uma tendência a gestos exagerados e um comportamento teatral, a atuação fica marcada por uma expressões cômicas, tornando os personagens cativantes e muito interessantes. A russa Boronskaja, a qual Victoria sucede na função de prima-bailarina, é cheia de caras e bocas, trejeitos exagerados e um divertidíssimo sotaque, sendo a responsável pelo humor do filme, ao lado do excêntrico professor Ljubov.
Moira - invejável cabelo ruivo - Shearer, como Victoria, transmite perfeitamente as dificuldades cotidianas de uma bailarina, que se multiplicam quando se vê obrigada a escolher entre viver seu romance com Julius ou continuar na companhia de Boris, que, possesso de ciúmes, demite o músico. As poucas cenas românticas do casal evidenciam uma química incrível entre os atores, e arrisco dizer: A cena em que em Boris impõe à moça sua difícil condição, levando-a a um surto desesperado e uma atitude irracional, consegue emocionar até o mais exigente e racional dos cinéfilos.

Tido como um dos filmes coloridos mais bonitos de todos os tempos, o aspecto visual da obra é encantador. O tom amarelo da fotografia, típico de filmes antigos, faz contraste com o vermelho, que invade o cenário, os figurinos e na forma de sapatilhas, os pés da protagonista. A coreografia dos bailarinos, a deliciosa música instrumental e montagens de câmera, primitivas, porém de efeito incrível, fazem da apresentação onde Vicky estreia – na qual dança o balé que intitula a obra – a cena mais bonita do filme.

Sapatinhos Vermelhos nos surpreende do começo ao fim, devido ao brilhantismo do elenco, a riqueza dos cenários e figurinos, a perfeição das coreografias e principalmente, ao seu final inesperado. O qual eu pertinentemente não irei denunciar, pois privaria vocês, queridos leitores, da chance de se apaixonar por esse espetáculo de sensações.

domingo, 24 de março de 2013

Quero dormir Holly e acordar Amelie

Qualquer pessoa com o mínimo de interesse verdadeiro por cinema já provou de uma admiração tão incrível por personagem X, a ponto de querer se transformar nele, adotar inconscientemente alguns traços de seu comportamento, e se necessário, criar mentalmente um final alternativo para um infortuno destino que este possa carregar.

Quando Audrey Hepburn atravessou a 5ª Avenida comendo pão doce, vestida no eternizado “pretinho básico” by Givenchy, as cinco e meia da manhã, não sabia que sua caminhada em frente a Tiffany’s seria posteriormente parodiada inúmeras vezes, por atrizes lisonjeadas em refazer tal percurso. Provavelmente, ao criar Holly Golightly, Truman Capote não ambicionava um personagem épico, e Blake Edwards, personificando a jovem garota de programa na figura de Hepburn, não pretendia fazer dela um ícone de estilo e feminilidade.

Porém, a magia aconteceu, e Holly, em pleno século XXI, consegue nos deixar estúpidos de encantamento.
Encanto é justamente o sentimento despertado por personagens como Miss Golightly. Uma mistura de singularidades com clichês, inquestionáveis até pelos mais moderninhos, faz de Holly um poço inesgotável de inveja e admiração para as mulheres, e um colírio para os olhos masculinos.

Analisando esse barato cor-de-rosa provocado por certas pessoas fictícias, concluí que, se há um sucessor do “efeito Golightly”, este não seria produzido por outra se não Amelie Poulain. Embora não a considere meu desempenho favorito de Audrey - abençoado nome - Tautou, é impossível não se envolver pelas singulares características da francesa.
Sutileza, é talvez a essência do encantamento de Amelie. Com seu jeito provinciano, recatado, despretensiosamente misterioso, desperta nossa curiosidade, nos impulsiona a desvendar sua personalidade sonhadora, seu empenho em encaixar miudezas maravilhosas em seu corriqueiro dia-a-dia, sua vontade de preencher com “pequenos prazeres” aquele imbatível vazio que abraça a alma humana, quando esta abandona a infância. Como um amigo sabiamente destacou, a atriz, ao assumir o papel, o faz tão intensamente, a ponto de parecer assumir a si mesma. Audrey sendo Amelie é Audrey sendo Audrey. Por mais pseudo-cult que possa soar.

Terminamos "Breakfast at Tiffany’s" cantarolando Moon River, com vontade de recolher da rua um gato sem dono e nome, procurando por um lugar para ser nossa “Tiffany’s” e alguém para “pertencer” (de preferência um vizinho bonitão, charmoso e escritor). Amelie, por sua vez, direciona nossa atenção para as pequenas delícias da vida - como enfiar a mão no saco de grãos ou quebrar a casquinha do creme brulee - , mostrando que a magia decorrente da troca mútua de gentilezas é capaz de deixar nosso “destino fabuloso”.

Bom dia

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Tokyo’s Loneliness

Rever um filme, para uma pessoa impaciente e hiperativa como a blogueira que vos escreve, é uma tarefa, no mínimo, complicada.

Contudo, entre as resoluções não listadas e programadas aleatoriamente para este novo ano, se encontra a missão de rever e reler alguns filmes e livros, tal qual um pressentimento, desprovido de explicações racionais e com origem desconhecida, me aconselha a fazer. Um dos itens do tópico apelidado de “Revisão inútil, porém, inexplicavelmente necessária” era, visto que acabei de o re-assistir, “Lost in Translation”. Catarse, que para algumas definições é um sentimento de extrema empatia, foi o que experimentei ao rever o drama escrito e dirigido pela jovem- prodígio-hipster Sofia Coppola. Típico de algumas personagens encenadas pela talentosa – e linda - Scarlett Johansson, Charlotte causou em mim uma extrema afinidade e um profundo sentimento de identificação. Obviamente, não possuo nem metade do ar misteriosamente lânguido e poético nela encontrado, porém vi retratados com absurda fidelidade, em suas cenas de desconcertada timidez e introspecção, meus momentos de acanhamento, como se os últimos houvessem sido tomados como material de pesquisa.

Aliás, acanhamento pode ser considerado uma das palavras chaves do roteiro, assim como solidão, adaptação e descoberta. Coppolina conseguiu captar na construção de seus personagens aquela assustadora sensação de se sentir sozinho em uma multidão, lembrando que não se trata de uma multidão qualquer, mas a existente no exaustivamente populoso e organizado cotidiano de Tokyo, com seu trânsito ininterrupto e a incessante transmissão dos arranha-céus cobertos por televisores.

Não se trata de um filme movimentado ou agitado. Feito um devaneio – uma excelente comparação feita por uma amiga quando estávamos discutindo a obra – as personagens estão mais envolvidas com seus conflitos interiores e divagações do que com o exótico cotidiano ao redor. Boris Harris, incrivelmente interpretado por Bill Murray, é o melhor exemplo para esse aspecto, visto que seu personagem, durante todo o filme, não faz questão nenhuma de disfarçar sua indiferença – cômica ou revoltante, dependendo do momento - pelos costumes orientais e a imensa vontade de dar o fora daquela mistura de cultura milenar com cidade futurista. Filmes da Copollina possuem uma fotografia caprichada como referencial. Nesse aspecto, temos como características principais a mistura das luzes dos famosos fliperamas japoneses, o colorido dos templos budistas e um fundo nublado de megalópole, impressionando nossos olhos a cada passagem de cena, com uma atmosfera onírica e muito tocante. Lost in translation, é, acima de qualquer coisa, um filme sensitivo, capaz de agitar não só o emocional como a maioria de nossos sentidos físicos – exceto o olfato, obviamente. Produz uma sensação semelhante a uma taça de vinho sendo degustada aos poucos: um copo cheio para reflexões e transbordando sensibilidade a cada gole, ou melhor, cena.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Estranho Mundo de Tim


Minha família nunca foi de realizar grandes reuniões em datas comemorativas, nem mesmo no Natal. No entanto, graças a esta singular característica familiar, eu passei os feriados mais marcantes de minha infância vendo “O Grinch”, “O Expresso Polar” e “Os Saltimbancos Trapalhões”. Não venha me dizer que você nunca assistiu Trapalhões, cult.

Na virada de um aleatório dia 24 para o dia 25 de dezembro, acompanhei pela primeira vez a história de um esqueleto, cuja missão era levar para cidade do Halloween a magia do Natal. O filme era uma mistura de comédia, terror e números músicais chicletes, características suficientemente relevantes para encantar uma garotinha tão estranha quanto a jovem pseudoadulta na qual ela se tornaria. E foi aí que minha obcessão pelo cara que criou tudo isso começou.

Mentira. Começou quando aos 13 anos descobri que, assim como “O Estranho Mundo de Jack”, “Edward Mãos de Tesoura” e os “Fantasmas se divertem”, eram frutos da genialidade de um único diretor, produtor e roteirista: Tim Burton.
Neste último domingo fui ao cinema de Cambuí City conferir Dark Shadows, e não poderia ter saído mais maravilhada da sessão. O filme é uma aliança entre fotografia perfeita, trilha sonora bacana, diálogos inteligentes, e como se pode prever, a atuação de um elenco que não havia como ser melhor. Creio que Burton não poderia ter compensado de maneira mais eficiente MINHA frustração com relação a sua adaptação de Alice no País das Maravilhas. Aliás, grande parte dessa frustração é decorrente não do filme em si, mas de Mia Wasikowska, que se mostrou uma Alice muito menos expressiva e curiosa do que a escrita por Lewis Carroll. Enfim, “águas passadas”.
Utilizando de muito humor negro e perspicácia , Burton evidência o lado bizarro, injusto e hipócrita das relações humanas e das instituições sociais, o qual é cuidadosamente maquiado pela mídia, criticando também a superficialidade, as contradições e o caráter exclusivo do padrão de vida norte-americano. Com doses cavalares de surrealismo e originalidade, usa do excêntrico e do macabro para desenvolver as características dos cenários e personagens que ilustram suas obras, desempenhando com louvor a difícil missão de tornar cativantes situações e figuras grotescas.

No entanto, minha admiração não chegaria nem a metade do que é sem o imenso grau de afinidade que sinto pelo Estranho Mundo de Tim. A magia está justamente em enxergar nos deslocados e alienados personagens de seus filmes, a minha parte que ainda não cresceu e continua assustada com as ironias e desventuras dessa louca vida, como uma garotinha esquisita e introspectiva.
Lydia me entenderia

domingo, 9 de outubro de 2011

Super Clichê


O fato de perdurarem até os dias de hoje não faz dos clichês uma verdade absoluta. Na realidade, os clichês mais famosos exercem o papel de 'mentira reconfortante', coisas que costumamos repetir quando a verdade é dura suficiente para ser ignorada, ou ideais incabíveis (ou não) à nossa realidade, mas que procuram fazer do mundo um lugar melhor... Ou mais fácil de se viver. Isso soou melancólico demais pra uma autora que acredita piamente em clichês. No entanto, o meu dever é relatar a verdade, ou a minha percepção dela. Ou simplesmente relatar algo.

O cinema adora clichês. A-D-O-R-A. Mesmo. Ou o gênero de romance já teria se extinguido faz tempo, porque independente do decorrer da trama você pode ter certeza que um filme romântico terminará em 'felizes para sempre' demonstrado das mais variadas formas. Alguns incluem a morte inesperada do mocinho ou mocinha, no final, ou no decorrer do filme (Um amor para recordar; P.s eu te amo), mas isso se tornou tão frequente que pode-se incluir uma 'subcategoria' chamada "romances dramáticos" ou "dramas românticos" no cinema moderno. E é clichê. Além desse gênero, você pode perceber que o clichê persegue ao lado do justiceiro, o vilão que matou sua família; O clichê é a voz que atrai a mocinha para o canto obscuro daquela casa/hospital psiquiátrico/floresta onde irá topar com um monstro/espírito/serial killer que acabará tirando sua vida da forma mais macabra (e clichê) possível; o clichê te chama de broto e te paga um refresco enquanto alguns figurantes dançam e cantam ao fundo músicas dos anos 50 e o clichê adora zumbis e alienígenas. Um filme com os dois não seria clichê.

Mas se em um filme tem alienígenas e crianças você pode ter certeza de que se trata de Spielberg. Afinal, foi o cara que inventou a "subcategoria" aliens+crianças e ainda consegue fazer filmes sensacionais até hoje, como Super 8. O diferencial do clichê alienígena nesse filme é justamente a forma 'inovadora' que ele é desenvolvido. E quando digo inovadora, não quero dizer sem noção ou fora da realidade (relatando que nesse caso a realidade abrange alienígenas). Qualquer um pode fazer um clichê alienígena, mas poucos podem tornar um clichê alienígena legal. E acreditem, Super 8 é muito legal.

A história que todo mundo conhece: Um menininho descobre que o Estado Norte-Americano mantem uma criatura extraterrestre aprisionada. Essa criatura foge e tenta voltar pra casa; os EUA tentam impedir e entra em cena o clássico clichê Aliens x Humanos; o menino faz amizade com o Alien; o Alien vence o exercito norte-americano e volta pra casa; o menininho fica com a sua namoradinha e faz as pazes com o pai. E junto com o 'felizes para sempre' há uma trilha sonora 'trilegal', uma fotografia incrível e um elenco pra ninguém botar defeito. E olha que entre os protagonistas se encontra Elle Fanning, que anda se mostrando um tanto quanto mais talentosa que a irmã (mas levem em consideração a minha birra pela Dakona Fanning desde sua participação em Lua Nova).

Super 8 é, nos tempos atuais, um dos filmes mais legais sobre alienígenas. Principalmente se você procura um filme que foque tanto quanto, ou mais, na história por traz das criaturas extraterrestres feitas com um 'show de efeitos especiais' , e quer muito mais que cenas de ação computadorizadas. Digno de clássico da Sessão da Tarde, sem ironias ou malícias. A Sessão da Tarde teve um papel deveras especial na vida de muita gente... Incluindo a minha vida.