Até algum tempo atrás mantive uma implicância inexplicável para com The Doors, torcendo o nariz sem motivos, embora Roadhouse Blues – um dos hits de maior sucesso da banda – seja uma das músicas que mais marcaram meus rolês pseudo-underground por Cambuí city. Contudo, há alguns fins de semana atrás fui a um show de uma banda cover da trupe de Morrison, arrastada por dois amigos muito fãs da mesma, e que antes da apresentação ficaram tiêtando o filme que narra sua trajetória, despertando minha curiosidade sobre ele.
O bom e velho rock’n’roll é meu gênero musical favorito, e minha paixonite foi bem escancarada na resenha que fiz sobre Quase Famosos. Me encanto pelos conflitos de ego, dificuldades financeiras de início de carreira, problemas com narcóticos e desvios psicológicos que envolvem as misteriosas criaturas que figuram os bastidores do meio, e a obra de Oliver Stone dá ênfase especial a estes aspectos.
O enredo nos mostra a ascensão e o término da banda, desde sua formação até a morte de seu vocalista. Jim, um rebelde de inteligência aguçada e muito jeito com palavras, volta de uma temporada no deserto, onde teve, ainda na infância, seu primeiro contato com a morte, tema favorito do músico e que durante todo o filme é personificada na figura de um “xamane” (feiticeiro indígena norte-americano, o que em nossa cultura é equivalente ao pajé).
Decorre desse isolamento não só sua nova perspectiva da realidade, como uma mente turbinada de poemas, nos quais seu amigo John vê um grande potencial de composição musical, sendo este explorado com a formação do The Doors. Acompanhados de Ray e Robby, Jim e John começam a espalhar por arranjos psicodélicos uma ideologia hedonista, para sua geração contextualizada na guerra do Vietnã, sedenta de paz, amor e boa música.
É difícil ficar indiferente diante da pessoa conturbada do vocalista, tão fascinante em toda sua complexidade. O tipo de personagem que você gostaria de conhecer, presenciar seu cotidiano, mesmo que a distância, te fazendo questionar a todo o momento qual a fonte de sua invejável inspiração e de uma personalidade tão turbulenta. Seus discursos poéticos dotados de um incrível poder sedutor e influenciador, explicam a legião de fãs que o cultuam até os dias atuais, 42 anos após sua morte.
Contudo, a falha do diretor foi justamente dar uma ênfase tão grande à figura já marcante e exibicionista do vocalista, tratando a história dos demais integrantes e da banda em si com certa superficialidade. Ademais, por comentários do Filmow, percebi que os verdadeiros fãs dos Doors acham o persona de Morrison interpretada por Van Kilmer excessivamente dramatizada, quase caricata.
Se você é tão fanático por The Doors tanto quanto meus amigos influenciadores talvez seja melhor buscar por documentários ou adicionar When You’re Strange – filme tido como referência quando se fala da trajetória da banda - na sua lista de filmes para ver. Porém, se sua procura é simplesmente por um bom filme sobre rock, assista The Doors (1991) e o termine cantarolando Alabama Song, como faço nesse momento, interruptamente.