terça-feira, 20 de maio de 2014

Colorindo fora do contorno

  Existe uma certa magia em coisas boas desconhecidas. Involuntáriamente, sua descoberta provoca uma sensação de privilégio. Por outro lado, como em um comentário do Filmow, também me surpreendo com o fato de um filme tão incrível como Pleasantville, propenso a tantas reflexões, pode ser tão pouco conhecido.

  O roteiro do longa de 1998, dirigido por Gary Ross, se constrói a partir de um tema bem simples e até muito clichê: a hipocrisia que sustentou o “American Way of Life”, com toda sua atmosfera de polidez, religiosidade e bons costumes, além de sua estética rockabilly (motivo pelo sou apaixonada por moda e cultura audiovisual das décadas de 40 e 50). O que torna o filme tão surpreendente é justamente a originalidade com que a ideia batida é contextualizada no desenrolar da trama.


  Os irmãos Jennifer e David são magicamente transportados para Pleasantville, um seriado em preto e branco no qual o garoto é viciado. Eles assumem o papel de Bud e Mary-Sue Parkins que ao lado de seus pais, Betty e George, são a família perfeita e protagonistas da novela. A reação dos irmãos ao fato não poderia ser mais diferente: enquanto Jennifer se desespera com a possibilidade de não retornar ao “mundo normal”, onde é uma popular superdesejada, David, um deslocado na “vida real”, demonstra uma certa satisfação ao vivenciar uma sociedade da qual sabe todas as regras e não precisa de esforço para se entrosar.


  Mas ele não demora muito para perceber que toda “perfeição” desse universo é sustentada por um roteiro sistemático, do qual não fazem parte sexo, conhecimento, dúvida, cor e até chuva, elementos ameaçadores a atmosfera obrigatoriamente “gentil” de Pleasantville. A dependência de seus habitantes a esse roteiro é tamanha, a ponto de uma ação não habitual de apenas uma pessoa afetar todo cotidiano do lugar. 


  Tudo sai fora do controle quando Jennifer mostra à Skipe (paquera de Mary-Sue) “outras coisas” que namorados fazem além de dar as mãos, e eventos irregulares começam a “colorir” a cidade, como uma rosa vermelha que o jovem encontra no jardim. Como todo tipo de mudança causa resistência na parcela conservadora, em Pleasantville não seria diferente. 

  Extremamente interessante é essa correlação feita entre descoberta e cor: Os elementos começam a sair do preto e branco a medida que as pessoas vão ficando esclarecidas, algumas, a ponto de ganharem cor também. Quem rejeita as mudanças optando por ainda continuar sua rotina padronizadamente “gentil” permanece cinzento.


  Às vezes, soundtracks que rolam durante os créditos de um filme conseguem traduzir brilhantemente o conteúdo do mesmo. Portanto, se quer descobrir mais sobre Pleasantville - A vida em Preto em Branco, e quem sabe, desvendar um pouco mais sobre seu final, sugiro que escute Across the Universe. Ou então, assista a essa maravilhosa obra semidesconhecida que é encerrada com chave de ouro pela música.

6 comentários:

  1. Gostei da análise psicológica que você fez ao filme. Parece ser muito bacana! Gosto de filmes que me causem reflexões, que me fazem ir além do óbvio.

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  2. Interessante... mto interessante...

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  3. Fiquei aqui pensando: "como nunca tinha ouvido falar disso antes?!". Achei a ideia brilhante. E tem alguns atores conhecidos. Já já abro uma aba para procurar o torrent do filme. Obrigada pela recomendação.

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  4. que filme genial! *-*
    nossa eu me lembrei de "o show de truman"
    amei, sério mesmo. vou caçar.

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  5. Juro que nunca havia ouvido falar de Pleasantville, parece muito interessante, e depois dessa sua analise então! Já tenho o que fazer no meu final de semana!
    Tem conto novo no blog, quando tiver um tempinho só dar uma passadinha, viu?! Um beijo!
    http://sweetjaneand.blogspot.com.br/

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  6. Olha só, nunca tinha ouvido falar desse filme, a sua resenha fê-lo parecer muito bom. A temática e as cores (ou a falta dessas), e etc. E se você diz que a trilha sonora ajuda a traduzir o conteúdo, parece ainda mais interessante. Amo filmes com uma boa trilha sonora! Quando tiver a oportunidade, verei!

    Saudade daqui.
    Beijos! :**

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